A melancolia de fim de ano e o que sente quase toda mulher 35+
Dezembro chega carregando luzes, músicas, reencontros e expectativas. Para muitos, é um período de celebração; para outras, especialmente mulheres acima dos 35 anos, pode despertar uma mistura estranha de tristeza, cansaço e desconexão. É como se a alma ficasse mais silenciosa justamente quando o mundo inteiro parece gritar alegria.
Melancolia, trauma e individuação
Freud, em 1917, descreveu a melancolia como um tipo de luto diferente daquele que conhecemos. No luto comum, sabemos exatamente o que perdemos. Na melancolia, a sensação é de perda, mas não conseguimos nomear o que foi embora. É um vazio que não tem endereço. Um nó que não tem uma única história por trás, mas muitas camadas de vivências.
Ferenczi, décadas depois, aprofunda essa compreensão ao explicar como nosso corpo guarda memórias que a mente não consegue traduzir. Ele dizia que o trauma não é apenas o acontecimento em si, mas aquilo que não pôde ser sentido, expresso, testemunhado como seria necessário. Em outras palavras: aquilo que você teve que engolir quieta.
E é aí que dezembro toca fundo em diversas feridas.
Pois entre listas de compras, agendas lotadas e reuniões de família, surge um fenômeno silencioso: mulheres que se sentem deslocadas, fragmentadas, tristes ou emocionalmente “travadas” durante as festas, mas que continuam desempenhando papéis funcionais que carregam desde a infância. Afinal, muitas de nós cresceram ouvindo que deveríamos ser fortes, agradar as visitas, não incomodar os mais velhos, não demonstrar cansaço, “fazer bonito” nas datas importantes, ser prestativa ajudando em todos os rituais de fim de ano. A pressão emocional é antiga e dezembro só acende o holofote.
Por isso o fim de ano é um gatilho emocional porque conversa com tempos antigos: Natais da infância que não foram tão mágicos, ausências que doem, rupturas familiares, comparações que machucavam, expectativas que você não conseguia alcançar. Ferenczi chamaria isso de traumas silenciosos, experiências que você viveu sozinha, sem testemunha, sem acolhimento, e que portanto nunca puderam cicatrizar totalmente.
Jung dizia que existe um ponto na vida em que a alma começa a pedir passagem. Ele chamou esse processo de individuação: o movimento profundo em que nos tornamos quem realmente somos, e não apenas quem aprendemos a ser para sobreviver. Para muitas mulheres, esse chamado começa (ou se intensifica) depois dos 35. Não é coincidência que a melancolia apareça justamente nessa fase.
Jung diria que a tristeza de dezembro não é apenas dor, é símbolo. É a passagem entre ciclos, a chance de encerrar o que não pertence mais e abrir espaço para uma vida mais autêntica. Mulheres 35+ costumam sentir isso com intensidade porque já viveram o suficiente para perceber que não querem mais performar. Querem se encontrar. Querem se escolher. Querem se ouvir.
O que fazer agora?
E esse movimento interno, ainda que desconfortável, é profundamente transformador. Depois dos 35, já não funciona mais fingir que está tudo bem só para sustentar um papel. A máscara pesa. A exaustão aparece. O sorriso automático falha. E o que surge é uma pergunta profunda: o que, de fato, eu quero viver daqui para frente?
Freud dizia que “onde há recalcamento, há sofrimento”. Ferenczi completava: “é no encontro com o outro que a ferida pode ser reparada”. E Jung lembraria: “Aquilo a que você resiste, também persiste.”
Talvez este fim de ano não precise ser sobre festa. Talvez precise ser sobre cura. Sobre se ouvir. Sobre se escolher. Sobre permitir que a mulher que você está se tornando encontre espaço dentro da mulher que você sempre precisou ser.
Texto originalmente publicado no Jornal Fronteiras da Psicanálise, edição de dezembro/2025.