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Cintia Blank
Reflexões

Unindo sagrado feminino e pensamento sistêmico para compreender nossa história e nossas relações

Cintia Blank · · 3 min de leitura

Nossa experiência de ser mulher se desenvolve em relação com a família, a cultura e as condições em que vivemos. Aprendemos sobre cuidado, amor, corpo e liberdade observando outras mulheres e percebendo o que se esperava delas. Parte dessas referências nos fortalece; outra parte pode se tornar difícil de sustentar.

É nesse encontro entre história pessoal e relações que podemos aproximar o sagrado feminino do pensamento sistêmico.

O sagrado feminino pode oferecer espaços simbólicos e vivenciais para explorar os significados de ser mulher, por meio da escrita, da arte e das rodas de conversa. Já o pensamento sistêmico contribui para compreender como essas experiências se organizam nos vínculos e no cotidiano. São campos diferentes, mas que podem dialogar na prática.

Como os padrões se mantêm nas relações

Pensemos em uma mulher que cresceu vendo a mãe e a avó cuidarem da casa. Ela admira essas mulheres, mas sente o peso de também estar sempre disponível a todos. Em uma vivência, pode reconhecer essa mistura de amor, identificação e cansaço.

O olhar sistêmico leva essa reflexão às relações atuais: como as tarefas são distribuídas? O que acontece quando ela pede ajuda? Quando estabelece um limite, consegue sustentá-lo diante da reação dos outros?

Imagine que, ao reservar uma tarde para si, essa mulher encontre reclamações da família.

“Mas e o café da tarde?”

“Preciso de uma roupa e não estou achando!”

“Não me sinto bem, acho que estou com febre…”

E então essa mulher sente culpa, cancela seus planos e retoma as tarefas cotidianas. O desconforto diminui naquele momento, enquanto a expectativa de que ela esteja sempre disponível permanece. Parece uma história bem comum, não?!

Observar essa sequência ajuda a compreender como um padrão se mantém nas interações. A partir daí, o reconhecimento emocional pode se desdobrar em conversas sobre responsabilidades, acordos e limites. O cuidado consigo ganha espaço também na organização cotidiana da casa.

Ancestralidade e escolhas no presente

A ancestralidade também pode ser explorada nessa aproximação. Podemos reconhecer histórias, valores e formas de demonstrar amor transmitidos entre gerações, distinguindo aquilo que sabemos da nossa família dos significados simbólicos que construímos nas vivências. Amar as mulheres que vieram antes de nós pode coexistir com o desejo de fazer escolhas diferentes.

Rodas de mulheres e formas de pertencimento

O próprio espaço das rodas de mulheres pode se beneficiar de um olhar sistêmico. Um grupo constrói formas de pertencimento e expectativas sobre o que pode ser dito, valorizado ou questionado. Por isso, vale observar como acolhe experiências que diferem das mais compartilhadas.

Quando o feminino é associado obrigatoriamente à maternidade, à delicadeza ou à disposição para cuidar, algumas mulheres podem sentir que precisam se adaptar a mais um modelo. Uma roda que favorece a escuta precisa comportar diferentes corpos, desejos, histórias e maneiras de viver.

Integrar essas perspectivas é abrir espaço para os sentimentos e observar as relações em que eles aparecem. Uma carta à mãe pode ajudar a reconhecer expectativas; a reflexão seguinte pode investigar quais delas ainda orientam nossas decisões e o que desejamos modificar no presente.

O que da história das mulheres da sua família você deseja levar adiante, e o que gostaria de viver de outra maneira?

Cintia Blank · terapeuta de mulheres 35+